11.6.14

Ou derrotamos o dinheiro ou ele nos derrota


O povo de Chapadinha quis mudança e para isso derrotou com expressiva votação um dos melhores prefeitos que a cidade já teve como consequência do desgaste de quem ele escolheu para lhe suceder. 


Para a tarefa de derrotar Magno Bacelar foi escolhida uma pessoa sobre quem pouco se sabia além do fato de ser milionária, mas nada mais importava. Ela tinha tanto dinheiro, diziam seus partidários, que não precisaria meter a mão nos cofres da prefeitura (como se a corrupção fosse um crime de pobres).

Agora se sabe que, mesmo tendo um patrimônio suficiente para si e para as próximas gerações da sua família, uma das primeiras ações de Belezinha foi colocar suas filhas na folha de pagamento da prefeitura, além de todos os esquemas desvios de recursos públicos que já foram descobertos nos últimos meses e outros tantos que ainda virão à tona.

O pau mandado da prefeita finge que nada vê, desvia a visão da gratificação recebida pela primeira-filha, mas a explicação para essa visão mais curva que a minha que sou vesgo, como eles gostam sempre de lembrar, virá à tona quando o resto da folha de pagamento vir a público. Estamos apenas começando.

Belezinha, contudo, é um mal passageiro. Logo logo voltará à insignificância social e política que tinha antes de prometer dinheiro e emprego a meio mundo de gente para chegar à prefeitura. O que nós precisamos combater não é ela, mas a raiz do problema que faz com que sua administração seja o desastre que é.

Por que um povo tão pobre, quando desejoso por mudança na administração, correu atrás daquela que, sendo a mulher mais rica da cidade, era portanto a mais distante da sua realidade, das suas dificuldades, das suas lutas diárias? 

Ao gastar a fortuna que gastou para se eleger, Belezinha fez o que a maioria que gasta fortunas para se eleger faz. Se sentiu à vontade para descontar a conta da campanha nos cofres públicos. Mas quem desvia para cobrir gastos de campanha, desvia também para enriquecer (ainda mais), para corromper advogados ou quem mais se disponha. 

O discurso fácil do senso comum ataca todos que disputem a política como se todos que participam dela tivessem nas suas índoles a má intenção de se locupletar com recursos públicos, o problema é muito mais complicado do que as lógicas sheherazadianas. É o uso e abuso do poder econômico na política e nas eleições que massacra a democracia e custa incalculáveis prejuízos às verbas públicas.

Depende de nós mudar essa tragédia brasileira. Em 2014 elegeremos deputados, senadores, governadores e presidente da República. Daqui a dois anos, elegeremos um(a) novo(a) prefeito(a). Podemos até nos livrar da atual chefe do Executivo (provavelmente até antes disso), mas se continuarmos a eleger nossos representantes baseados na fortuna que eles têm e no dinheiro que eles distribuem durante a campanha, podem ter certeza, por mais absurdo que possa parecer, que teremos alguém ainda pior que Belezinha nos representando.

30.4.14

Quem não se comunica...

Lembremos a lição do velho guerreiro
...se trumbica, dizia Chacrinha. 

É impressionante a incompetência do governo Dilma e do próprio PT na área da comunicação. 

Há um levante neoconservador em curso sem nenhuma resposta a altura. Com o partido recuado na disputa pela sociedade desde a crise do mensalão a direita faz essa disputa formando opinião, inclusive da massa que foi agregada ao mercado de consumo durante o governo popular, com figuras como Rachel Sheherazade, Silas Malafaia, Danilo Gentili, sem contar os de sempre, como Miriam Leitão, William Waack, Arnaldo Jabor e por aí vai.

Reeleita pelo projeto político
O PT mantém boa parte do eleitorado e Dilma deve até ser reeleita, mas sob um desgaste enorme porque tem perdido debates importantes por pura inépcia. Os dois maiores exemplos são a Petrobras e a Copa do Mundo.

Petrobras

Como pode o governo popular ser derrotado no debate sobre a Petrobrás?! Talvez os mais jovens (do que eu) não lembrem, mas a empresa estava desmoralizada, com vários incidentes estruturais e a ponto de ser mudado o nome para ser privatizada antes de Lula assumir a Presidência da República. Quem a reergueu foi o governo popular. 

P-36 afundou como FHC
afundava a PetrobraX
A Petrobrás vale hoje QUATRO VEZES o que valia quando FHC deixou o poder. Saltou de R$ 54,45 bilhões para R$ 228,4 bilhões. Quatro vezes! E chegou a valer R$ R$ 380,28 bilhões, oito vezes o valor anterior! Aí vem a frase com a qual Eduardo Campos desconstrói todo o mérito do governo popular junto a Petrobras: "A empresa vale metade do que valia em 2010 e está quatro vezes mais endividada".

"Nossa!", se espantam os desentendidos, "deve estar mesmo a ponto da falência". O que Eduardo Campos não explica, nem o governo se dá o trabalho de esclarecer a população é que a baixa do valor das ações da empresa é fruto desse endividamento, e esse endividamento é feito para viabilizar a extração de R$ 20 trilhões (!) que está guardado abaixo da camada de sal, no oceano atlântico, próximo à costa brasileira em forma de petróleo da melhor espécie.

Desde o "petróleo é nosso" que quem defende
a Petrobras são as forças populares
Mas, enfim, a Petrobras envolve um debate técnico que os jornalões poderiam confundir o cidadão. O que não dá pra entender, é o governo perder o debate sobre a Copa do Mundo no Brasil. A Copa tem sido apresentada pelos neoconservadores como uma das sete pragas do Egito nos atingindo, parece que a FIFA anda de país em país procurando quem aceite sediar o evento. 

Há anos o Brasil vinha concorrendo para trazer a Copa pra cá de novo e logo depois de vencermos a concorrência, segundo o Datafolha, 79% da população era favorável, apenas 10% se opunha. A pesquisa mais recente mostra o placar bem mais apertado: 48% a 41%.

O que poderia ter feito o povo brasileiro se desgostar da ideia de sediar o mundial do esporte mais popular do país e do planeta? 

A gritaria vem de vários lados, mas a principal é: O governo está gastando Copa do Mundo ao invés de gastar com "saúde e educação".

Vamos aos números. 

Em 2003, quando Lula assume o governo, o orçamento do Ministério da Educação era R$ 19,1 bilhões. 

Em 2014 o Congresso aprovou o orçamento com R$ 82,3 bilhões.

Em 2003, quando Lula assume o governo, o orçamento do Ministério da Saúde era R$ 44,6 bilhões. 

Em 2014 o Congresso aprovou o orçamento comde R$ 106 bilhões.

Brasil vence a concorrência sob aplauso nacional
A Copa nunca diminuiu um centavo dos orçamentos da educação e da saúde, pelo contrário. A realização do evento no Brasil aquece a economia nacional, aumentando, portanto, a arrecadação, e, consequentemente, a capacidade de investimento em educação e saúde. 

Outro sofisma é que esta é a Copa do Mundo mais cara da história por causa do valor "gasto" em estádios. Dos R$ 25 bilhões do orçamento plurianual (incomparável, portanto, com os dados anuais de educação e saúde) do evento, apenas R$ 8 bilhões são EMPRÉSTIMOS do BNDES para a construção e reforma das arenas que receberão os jogos. 

O resto do orçamento é destinado a benfeitorias que ficarão como legado para a vida dos cidadãos como investimento em turismo, telecomunicações, segurança, portos, aeroportos e principalmente obras de mobilidade urbana, principal reivindicação que levou os jovens às ruas em julho do ano passado. E ainda assim o governo perde o debate.

Isso sem falar em qualquer questão de cunho político, emocional, de respeito internacional, ou vários outros fatores sociais e econômicos que envolvem o Brasil, numa mesma década, sediar a Copa do Mundo de futebol e as Olimpíadas. Dois atrasos, segundo nossa mídia tupiniquim.

Esta é a década do Brasil no mundo

28.4.14

Política dos fundos

O humorista Fábio Porchat, filho de ex-deputado federal homônimo, escreveu recente artigo que contribui para o debate pelo avesso. Cheio de senso comum, Porchat iguala os partidos políticos por baixo e ao final crava: "Eu, Fábio, tento focar nos candidatos". Ponto. Uma declaração quase Sheherazediana. Tão aplaudível quanto risível.

Um dos males que mais assola a política brasileira historicamente é exatamente o personalismo. Desde dos florianistas, passando por getulistas e mais recentemente lulistas, para ficar em poucos exemplos, nos acostumamos a cultuar líderes aos invés de defendermos programas políticos. 

É isso que o partidos são, ou pelo menos deveriam ser: canalizadores da vontade popular a programas políticos distintos. Digo "deveriam" porque é claro que o Brasil não possui 32 correntes de pensamento político estruturadas, mas a legislação permitiu que a criação de novos partidos se transformasse em um grande negócio para aqueles que detém o controle de legendas cartoriais para registros de candidatura. 

No meio desta sopa de letrinhas que virou a vida partidária brasileira é difícil para o eleitor diferenciar um do outro, principalmente quando o debate eleitoral vira um torneio de lama no qual os adversários disputam para ver quem consegue acusar mais o outro e reforçam a ideia de que são todos os iguais.

Não há partido totalmente bom, nem deve haver nenhum totalmente ruim. Não há partido "ficha limpa", não há partido que não faça aliança com o objetivo de chegar o poder, mas o que diferencia alguns partidos é o que fazem com o poder em mãos.

Eu, Eduardo, voto em um partido que representa o programa político que eu defendo: O Partidos dos Trabalhadores. Há quem ache o PT recuado e prefira votar no PSOL, ou quem seja anti-PT e vota noutro para derrotar o partido, há ainda quem não faça diferenciação e vote em qualquer partido fisiológico e sem programa definido porque o candidato na tela parece mais confiável. Esse último eleitor é o que mais contribui para a política brasileira ser o que é.

Agora um bom vídeo do Porta dos Fundos, que é o que Fábio Porchat sabe fazer de melhor: