14.7.15

A arca da muié ou a canoa furada dos cachorros grandes?

Chapadinha é uma cidade sem sorte ou sem juízo. Escrevi há pouco mais de um mês que a nossa tarefa em 2016 seria derrotar a prefeita Belezinha com algo melhor, mas fui surpreendido com a resposta: candidaturas de pessoas honestas e honradas devem ser gentilmente ignoradas. 

Em seguida veio uma lista com as opções que podem ser levadas em alguma consideração para enfrentar a prefeita, os cachorros grandes. Sejamos sinceros, entre esses, os que não estão inelegíveis são (muito) piores do que Belezinha. 

Ainda assim, para meu desencanto, a maior parte da oposição decidiu que a tarefa é derrotá-la a qualquer custo, mesmo que seja para colocar em seu lugar alguém com os mesmos ou piores defeitos que ela tem. Quem vai se arvorar de coerente depois de passar quatro anos acusando Belezinha de corrupta e terminar votando no "deputado fantástico"? Ou, em nome dos professores e demais trabalhadores, votando em quem deixou os salários atrasados? Ou ainda acusando a prefeita de autoritária e desrespeitosa pra terminar votando no deputado coronel?

Num momento em que avançam as forças de direita e conservadoras em todo o Brasil, são  essas as opções que temos para apresentar a Chapadinha?

Ora, não é de se admirar que tenhamos perdido lideranças e tantas pessoas já tenham decidido "entrar na arca da muié", mesmo sem a prefeita ter tido a humildade até aqui de reconhecer os erros cometidos, que não são poucos. É fácil acusar quem fez outra opção das piores coisas, difícil é reconhecer que, na disputa entre o ruim e o pior, Belezinha vai se consolidando como favorita para a eleição do ano que vem, não pelas obras que tem realizado, mas porque a oposição abusa do direito de errar. Enquanto ela, do seu jeito, tenta acertar o compasso, nós não sabemos nem que música está tocando.

Da forma como as coisas estão sendo construídas, não é apenas difícil ver os diferentes grupos se unindo para eleição, é impossível imaginar permanecermos unidos depois da vitória. Em menos tempo, a briga será pior do que aquela que gerou o racha entre a prefeita e seu maior cabo eleitoral. 

Há meses venho alertando para esses descaminhos que a oposição tomou e nenhuma correção foi feita. Não tenho feito oposição a Belezinha durante esses anos (tendo feito as mais graves e documentadas denúncias que essa administração sofreu) para terminar sendo chefiado por quem nada tem a haver com o tipo de oposição que fizemos até aqui, ou que eu acreditava que estávamos fazendo.

Me desculpem se falta diplomacia nas minhas palavras, mas digo o que outros também pensam. Esses outros, com a ilusão de que a união da oposição pode se dar em torno de si, mantém as palavras amenas, não vetam ninguém, dizem que podem votar em qualquer um. Eu, sem pretensões pessoais, tenho a liberdade de dizer o que desagrada aos dois lados desse debate: Em 2016, mais uma vez, a opção será de redução de danos e com os olhos voltados para 2018 e 2020.

Onde foi que eu errei?

Não posso me limitar a reclamar sem admitir que também tenho culpa por essa perda de rumo. Já tive força suficiente dentro da oposição para falar sem ser ignorado, mas tomei decisões erradas em momentos errados, principalmente no que diz respeito à candidatura a deputado que me vi obrigado a lançar, mas, pelo menos, essa decisão serviu para mostrar que não devo obediência a ninguém, não tenho chefe político, não faço política onde não sou respeitado e tenho coragem para enfrentar qualquer desafio, inclusive mais uma candidatura. 

1.7.15

Eu queria um referendo sobre maioridade penal

Quando foi marcado o referendo sobre a comercialização de armas, a maioria absoluta da população era a favor da proibição. Meses de debate depois, a proposta foi derrotado no voto.

Duvido que a proposta de reduzir a maioridade penal resistisse a alguns meses do país aprofundando esse debate que tem se dado de maneira tão rasteira.

E digo porque já fui um ferrenho defensor da redução da maioridade penal. Aliás, já fui um admirador de jornalistas estilo Datena, já bradei com orgulho que "direitos humanos são para humanos direitos", já daí tomei uma atitude radical. Ler.

E quanto mais li, mais percebi o quão pouco eu sabia e ainda sei. Criei outro entendimento da sociedade e do ser humano e hoje sou contra a redução. Posso até abrir mão desta minha convicção, mas em nomes de argumentos plausíveis. Não recuo pela afirmação rasa de que quem tem a minha opinião defende a impunidade.

Alguém tem coragem de dizer que os bispos da Igreja Católica defendem bandidos, dada a posição pública da CNBB sobre o tema? A Ordem dos Advogados do Brasil, a União Nacional dos Estudantes, a UNESCO, o governador Flávio Dino, até Joaquim Barbosa (!), ídolo da maioria de vocês. Estes são os defensores de bandidos no Brasil?! 

Sérios, honrados e amantes do povo são Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Bolsonaro, Alberto Fraga, Aluísio Mendes e essa corja de achacadores que joga para platéia em busca dos votos de vocês?

Quem aí pode dizer que reduzir a maioridade tem alguma relação com a solução dos problemas da criminalidade quando os países que tomaram essa medidas tiveram aumento da criminalidade, e alguns já voltaram atrás?

Eu apelo a quem se propõe racional, a quem quer debater tema tão relevante com base em argumentos e pergunto: Deve o Estado servir como instrumento de vingança? Deve o Estado abrir mão de proteger aqueles que sabidamente estão em outro estágio de desenvolvimento? Deve a Constituição ser mudada com base na exceção, no clamor da comoção?

Procure se informar sobre o que o Sinase, sobre o ECA, sobre o quanto temos falhado na proteção dos nossos jovens e na punição dos delinquentes juvenis e saia do lugar comum que defende mais encarceramentos, de mais jovens, mais negros, como a solução para os nossos problemas. 

Foi essa visão que nos trouxe a esses dados de guerra civil, e não vamos sair deste quadro se não enxergamos o problema da segurança pública como passaram a enxergar os países que deram certo nessa área e aí sim poderemos levar todo o povo brasileiro a, quem sabe, decidir num referendo.

24.5.15

Geração descartável


"Desenvolvemos a velocidade, mas isolamo-nos uns dos outros.
A maquinaria que nos poderia dar abundância deixou-nos na penúria.
Nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; nossa inteligência, cruéis e severos.
Pensamos muito e sentimos pouco."


O trecho acima é do discurso de Charles Chaplin no filme "O Grande Ditador", de 1940. Depois de 75 anos, o discurso é ainda mais atual do que à época. 

Na mesma fala, Chaplin cita o rádio e o avião como exemplos de invenções que aproximaram pessoas distantes. O que diria hoje na era das redes sociais, das informações instantaneamente espalhadas? 

Pensamos ainda mais, sentimos ainda menos. 

A forma de interagir com o meio modifica a nossa forma de interagir um com o outro. A velocidade dos acontecimentos e das informações não nos permite aprofundar em nada. Nos fechamos ainda mais em nós mesmo e na nossa visão estreita e sem base sólida do mundo ao redor.

Não há meio-termo ou moderação. Cada experiência é tida como a melhor ou a pior pela qual já passamos. Idolatramos ou odiamos quem mal conhecemos. Encontramos o grande amor das nossas vidas umas três vezes por ano. 

Qual será o futuro dessa geração? Como será a velhice das pessoas em famílias cada vez menores e mais dispersas se a busca pela felicidade instantânea não nos permite "perder tempo" consertando algo que pode ser rapidamente substituído.


Nos tornamos cada vez mais superlativos, superficiais e egoístas.

Tanta informação e tão pouco conhecimento.
Tanta gente e tanta solidão.